terça-feira, 10 de março de 2009


Acordei cedo naquele dia, apesar der ter dormido às cinco da madrugada. Queria caminhar, fui empurrado do sofá onde dormia por este impulso, sentia um aperto no peito e precisava de ar.
Caminhei até uma praça próxima, sentei-me. Mas sentia que não era o bastante. Caminhei por velhos lugares, os primeiros que freqüentei em minha vida, e fui parar em uma outra praça um pouco mais distante. Lugar antigo, berço da cidade onde nasci.
Fiquei sentado lá por um tempo, e senti que precisava caminhar um pouco mais. Então segui para o norte, rumo ao cemitério. Eu gosto daquele cemitério, é um lugar bastante tranqüilo.
Parei e sentei em um banco que fica ao lado da entrada deste cemitério. Foi quando vi um homem sair andando de costas do portão do cemitério, ele se abaixou e fez alguns sinais bem interessantes, apenas fiquei observando atentamente. Ele se levantou e caminhou rumo a uma velha cruz de madeira que fica do outro lado da rua em frente ao cemitério, fez o mesmo ritual, e depois seguiu rua abaixo tranquilamente. Ele nem sequer notou a minha presença.
Senti-me bem por ter presenciado todo aquele ritual de fé, um verdadeiro homem de fé.
Depois fiquei pensando se ele não seria um fantasma e se fantasmas realmente existem.
Levantei e fui até o portão do cemitério, um portão de metal, velho e enferrujado, mas muito bonito. Olhei para dentro e vi que estava completamente vazio, entrei sem pedir licença.
Logo na entrada tive uma sensação de solidão muito grande, olhei para a direita e vi uma estátua de Jesus Cristo em tamanho natural muito interessante. O Cristo parecia um ator de teatro encenando uma peça romântica, não havia dor em sua face. Fiquei parado observando a estátua, que parecia querer dizer alguma coisa.
Decidi fotografá-la, mas neste exato momento, meu celular tocou, eu sabia quem era. Mesmo sem reconhecer os números eu sabia que era ela me ligando de além-mar. Atendi. Nervoso e emocionado, era ela. Conversamos, a ligação caiu, ela retornou, me contou que a viagem tinha sido tranqüila e que as coisas estavam dando certo. Dizemos que nos amava-mos e nos despedimos. Fiquei muito feliz por ela, mas muito triste por min.
Quando olhei em volta, estava sentado em cima de um túmulo de criança, no meio de várias cruzes com nomes de criança escritos nelas.
O vento soprou estranho, como um uivo solitário, como um choro de criança. Uma cratera se abriu em minha volta, estava eu num deserto seco e morto, não havia ninguém, apenas eu e os restos daquelas crianças mortas.
Levantei e saí rápido daquele lugar, mas já era tarde, os fantasmas vieram atrás de min.
Fui até o túmulo de meu avô, queria perdir-lhe conselhos, queria poder ouvir a sua voz só mais uma vez. Mas ele não estava lá, apenas o seu nome escrito em letras de metal dourado. Sentei na pedra fria que cobre os seus restos, meu peito doía, o ar estava pesado, senti náuseas. Clamei por seus conselhos, mas não ouvi sua voz paterna.
Então o vento soprou, como um chamado, e quando levantei minha cabeça, a primeira coisa que vi e li, foi uma frase escrita em tinta desbotada numa lápide em frente. “As atitudes que são realizadas com base no verdadeiro amor são eternas”.
Não quis saber de quem era o túmulo, levantei e caminhei sem rumo, e o refrão: “eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar”... Começou a tocar na minha mente. “em cada despedida eu vou"...
Não consegui completar a música, uma cachoeira de lágrimas brotou de meus olhos, e chorei. Chorei por toda uma vida de lágrimas, chorei e solucei. Como chorei!
Segui chorando por toda uma avenida, me apoiando em túmulos e árvores que encontrava no caminho. Apenas eu e mais ninguém.
Estava eu vivo, atuando no palco da vida, para um público de mortos. O melhor público que já encontrei. Atento e silencioso.
Quando as lágrimas secaram não houve aplausos, apenas o vento beijando suave e fresco o meu rosto.
O céu estava mais claro, o vento soprava uma sonata, daquelas que as mães cantam para os filhos pequenos.
Voltei até a estátua de Jesus Cristo onde tudo havia começado, acho que entendi o recado.
Fiz algumas fotos da estátua e sai andando de costas pelo portão, como fez aquele homem de fé. Pedi desculpas por alguma coisa e agradeci.
Segui rua abaixo tranquilamente.

sexta-feira, 6 de março de 2009


Toda vez que eu a via, reparava nela por mais algum tempo. Chamava a minha atenção não só pela beleza, mas pelo jeitinho especial. Ela é bonita, mas havia algo mais.
Sempre me encantei pelas belas mulheres, e sempre fui traído por meus próprios olhos. Até tu olhos! Eu dizia. Não sei se era por causa do meu signo, ou por causa da minha vaidade, mas a verdade é que tenho um estranho senso estético, daqueles que se embriagam por tudo o que é belo.
Meus olhos são minha dádiva e minha maldição.
Mas com ela foi diferente, com ela aprendi a enxergar de olhos fechados, com ela aprendi a sentir, com ela aprendi a me permitir.
Lá estava ela, com a sua singela beleza e seu jeito especial a falar, e como ela fala! Eu escutava de longe, imerso em meus próprios dilemas, absorto de todo o resto. Mas escutando de longe, sentindo sua presença.
Oportunidades são assim, aparecem quando menos esperamos.
Ficamos, e ficamos, e ficamos. E fomos ficando, e ficando...
Derrepente nasceu, em algum momento dos nossos momentos, nasceu. E eu celebrei dizendo eu te amo. Estava grávido deste sentimento e não sabia. E ele nasceu, sem dor, sem medo, puro e belo.
Mas o pranto veio mais tarde, com o medo de perdê-la, de perder esse filho, tão lindo.
Mas quem disse que os filhos são nossos, eles são do mundo. Então ela foi para o mundo.
Ela é assim, mais linda que o sol quando nasce, uma beleza verdadeira, que transcende a vaidade dos meus olhos e mergulha fundo no meu coração. É linda, mas não é perfeita, nem as montanhas são perfeitas. É frágil, mas não demonstra. Às vezes ela cede. Se abre para eu entrar. Mas depois se fecha, como uma concha em busca de privacidade.
Não quero entendê-la, mas aceitá-la.
Sinto que ela me ama. Do seu jeito especial, às vezes gostaria que ela me amasse de outras formas, mas não sei bem quais, mas estou feliz por ser amado do seu jeito. E eu gosto. Gosto dela.
Sempre soube que havia algo mais.

terça-feira, 3 de março de 2009


Minha perna coça, sinto um impulso de coçá-la, é uma coceirinha gostosa na
base da panturrilha esquerda, logo acima do calcanhar.
Mas coço o meu queixo, onde existe uma barba por fazer.
Escrevo para matar o tempo, antes que o tempo me mate.
Mas antes que o tempo me mate, vou falar do vento.
Acho que quando morrer, vou me juntar ao vento em suas viagens,
Somo amigos íntimos, irmãos de essência.
Não quero correr atrás do vento, prefiro ir de encontro a ele, pois ele sempre faz a curva.
Sempre quis saber onde o vento faz a curva, seria lá pras quelas bandas de Tupaciguara?
Não, acho que Tupaciguara é o lugar onde o Judas perdeu as botas.
Lanço-me ao vento de uma vez, pairo no ar feito folha de outono, vou deslizando até o chão.
Lanço-me novamente, mas o vento passou e me arrebento no concreto quente,
onde os carros cospem fumaça preta e fedida nas ruas da cidade antiga.
São sete os ventos, ou pelo menos foi os que contei,
passam a cada 37 segundos do ponto onde parei.
As Aranhas no teto fazem sua teia,
fina, espessa, rasa, profunda e larga.
Uma colcha de retalhos muito bem costurados
de modo que tudo não se perca.

As aranhas no teto armam sua armadilha,
muita precisão, estratégia de caçador.
Ponto e paciência herdados.

As aranhas no teto devoram a sua presa,
prato predileto no jantar.
Mesa posta sem talheres, sem etiquetas.

As aranhas no teto são mágicas, elas tecem sem parar.
Fios, junções, passado e presente.
Qual o futuro das aranhas no teto?

As aranhas no teto podem ser traiçoeiras,
podem ser amigas, podem e não podem.

São tantas as aranhas, são tantos os tetos,
cada teto, sua aranha.
Cara aranha sua sentença.